Tem uma coisa que me irrita na cobertura gastronômica brasileira: a obsessão com restaurantes caros, chefs estrelados e ingredientes exóticos, enquanto a comida de rua — que é onde a culinária brasileira realmente vive e respira — fica em segundo plano.
Não estou falando de comida de rua como tendência, como acontece quando algum chef famoso "descobre" o tapioca ou o cuscuz nordestino e coloca no menu de um restaurante de R$ 300 o couvert. Estou falando da comida feita por pessoas reais, em carrinhos e barracas, com receitas que passam de geração em geração.
O Patrimônio que Está nas Ruas
O acarajé da Bahia é patrimônio imaterial do Brasil desde 2004 — uma das poucas concessões do sistema oficial de patrimônio à cultura alimentar popular. Mas e o pastel de feira paulistano? E o caldo de cana com limão? E o churrasquinho de barraca com aquele molho vinagrete que nenhum restaurante consegue replicar?
Esses alimentos não têm certificado de patrimônio, mas têm algo mais importante: fazem parte da memória afetiva de dezenas de milhões de brasileiros. São os sabores que as pessoas associam à infância, aos fins de semana, às festas de bairro.
A Ameaça Real
A comida de rua está sob pressão. Fiscalização sanitária que muitas vezes é aplicada de forma seletiva — mais rigorosa com os pequenos, mais leniente com os grandes. Gentrificação que expulsa feirantes e ambulantes dos espaços que sempre ocuparam. Plataformas de delivery que transformam a experiência da comida de rua em algo que chega numa embalagem plástica, sem o ambiente, sem o barulho, sem o cheiro.
Defender a comida de rua não é romantismo. É defender uma forma de economia popular, de transmissão de conhecimento culinário e de vida urbana que vale a pena preservar.